Era uma noite fria em que minha irmã e eu nos abraçávamos e cantávamos aquelas músicas do nosso tempo inocente para que não ouvíssemos os trovões e pudéssemos nos esquentar sem que uma Irmã do orfanato viesse nos encher a paciência, mas aquela não era mais uma noite fria daquela prisão onde ninguém nos queria, na manhã após aquela péssima tempestade, eu poderia ir embora dali.
Na verdade, tudo começou aos meus 15 anos, no dia em que minha mãe arrumou um novo “pai” para mim, Melissa, e minha irmã, Melina. Esse cara, o novo marido de minha mãe, devia ter uns 20 e poucos anos, deixava a barba por fazer e andava sempre sem camisa ou apenas de cueca por nossa casa.
Minha mãe sempre fora muito ingênua, ou pelo menos se fazia assim, mas Melina sempre gostou de caras mais velhos e por isso criava mais intimidade com os namorados de mamãe. Intimidade o suficiente para os caras contarem suas histórias sensuais, mas nada além disso.
Melina é um ano mais nova que eu, mas ela sempre foi mais bem formada em relação a corpo e rosto, sempre aparentou ser de 3 a 4 anos mais velha que sua real idade, enquanto eu sempre tive cara de criança.
Bem, o novo namorado da mamãe se chamava Denis, era um amor com a gente, mas quase sempre eu podia perceber que ele olhava para Melina com outros olhos, senão de pai.
Dia 20 de abril de 1999, cheguei em casa, após uma longa tarde com mamãe resolvendo os últimos preparativos de nossa viagem de férias, e percebi roupas espalhadas pelo chão da casa. Quando entrei no quarto de Melina para contar-lhe de nossa viagem, vi que ela estava amarrada na cama com Denis se despindo no banheiro.
Sinceramente, foi a cena mais estúpida, nojenta e grosseira que já vi em toda minha vida. As lágrimas escorriam pelo rosto de minha irmã que ainda estava vestida.
Desde os 12 anos lutava boxe, mas nunca precisei de meus golpes fora das aulas, mas aquele dia, meu lado masculino se despertou e a partir de então passei a ser mais cautelosa e mais mãe em relação à minha irmã.
Não houve estupro, mas por cuidado, pedi para mamãe que mudássemos de casa e ela atendeu meu ESTÚPIDO pedido.
Viajando de Curitiba para Porto Alegre, batemos de frente com um caminhão. Mamãe morreu na hora, Melina e eu ficamos em coma por seis meses, sob os cuidados de minha avó paterna (que nos odiava em função de mamãe ter traído papai quando tínhamos 2 anos).
Quando finalmente nos recuperamos, fomos mandadas a um orfanato em Porto Alegre, onde ficamos por 2 anos, fiz 18 anos e pude sair do orfanato e pedir a guarda judicial de minha irmã que desde o acidente sofre de anemia, conseguimos controlar, mas ultimamente ela tem estado sem acompanhamento médico, o que piora o caso.
Ela ainda conseguia comer, tomar banho e fazer tudo sozinha, mas é fraca, frágil e sensível, parecia que a qualquer momento poderia se quebrar inteira em milhões de pedacinhos.
Estava arrumando minhas malas para ter a última audiência onde o juiz diria se poderia ou não levar minha irmã comigo.
Hoje, 25 de abril de 2004, dois anos após nossa saída do orfanato, é aniversário de Melina e o maior presente que encontrei para dar a ela é minha medula óssea para buscar a cura de sua leucemia.
Já doei sangue e agora só posso doar a medula que é a única alternativa de que ela se cure, mas existe a possível circunstância de o corpo dela reagir negativamente ao meu, mas prefiro descartar essa opção.
Entro na sala e logo sou dopada. Acordo agora, 2 horas depois, ao lado de minha irmã que chora incansavelmente.
- O que aconteceu, Mel? - Tento me levantar e chegar até ela, mas ainda sinto fraqueza.
- Meu corpo rejeitou sua medula, e agora Lissa? - Ela não consegue parar de chorar, por um segundo sequer.
- Agora, a gente vai dar um jeito. Lembra? Somos eu e você, você e eu, contra o mundo. -
Até que o médico me explica o que de fato aconteceu, nossa medula não era compatível e agora ela estava ainda mais fraca e que precisaríamos de uma medula o mais rápido possível. Pedi que ligasse para meus avós maternos e paternos.
Depois de milhares de testes e exames, finalmente acharam uma medula compatível com a de Melinda, e era justamente a de minha avó paterna Lisie, aquela que nos odiava.
Ela se recusou a doar. Mesmo depois do médico explicar a situação, ela continuava negando.
Passou três dias no hospital, tendo sessões com psicólogo e finalmente no dia em que iria dar sua resposta definitiva, entrou no quarto com aquele jeito prepotente de sempre, e presenciou uma convulsão de Mel.
Ali, Lisie tremeu e chorou. Pediu-nos perdão por tudo o que nos fez e pelas diversas vezes em que nos machucou física e psicologicamente. Dois dias depois Mel já era uma pessoa nova.
Mas meses depois ela precisou de um rim, vovó quis doar o dela mas foi rejeitado e então novamente fui eu para uma bateria de exames.
EU ERA COMPATÍVEL!!!! Sim, Melinda agora poderia viver, eu salvaria a vida dela. Mas eles, os médicos e a justiça, não queriam me permitir doar por eu ser jovem e ter uma vida pela frente.
- Doutor, eu não vou ter uma vida pela frente sem a minha irmã. Ela é tudo o que eu tenho de mais preciso, de mais valioso. Por ela eu entraria em uma guerra mundial, sozinha, sem armas, sem nada. Por ela, eu daria MINHA VIDA, não só meu rim, mas meu fígado, meus pulmões, meu coração, meu cérebro. Melinda já enfrentou tantas dificuldades e em nenhuma delas eu a abandonei, e eu também já passei por tanta coisa nessa vida, já fui julgada pela morte de minha mãe, já fui chamada de cúmplice na traição de meus pais sendo ainda uma criança, e ela nunca me abandonou, muito pelo contrário, sempre esteve lá. Pronta pra me ajudar, pronta pra ser meu porto seguro, minha vida, tudo o que eu tenho hoje é ela. Só ela. Meus pais se foram e meus avós não gostam de mim, apenas me aturam, mas ela, ela me ama e se fosse eu naquela cama, ela não pensaria duas vezes antes de fazer a doação. Então, se o senhor, não quiser fazer o transplante, eu vou trabalhar mais, fazer mais bicos e pagar um outro hospital, um melhor, onde entendam nossa relação de irmãs, de cúmplices e possam fazer essa doação. Obrigada - E saí da sala, em direção ao quarto pronta para conversar com Mel.
- Melissa, amanhã esteja aqui as 7 horas da manhã, com seus exames e disposta a fazer o transplante. - Ele disse alto no corredor calmo e silencioso do hospital.
Aquele sorriso de Melinda quando acordei, após a cirurgia, foi o melhor de toda a minha vida.
- Lissa, eles fizeram com sucesso, daqui a meia hora vou para a sala de cirurgia. Love you, sister. - Ela disse baixo, mole, já meio anestesiada.
- Linda, somos eu e você, você e eu, contra o mundo. Love you too, little sister. -
Hoje, quatro anos após tudo isso, Melinda vive em uma casa amarela ao lado da minha, mora com seu marido e seus dois filhos, Luis e Lissa. Enquanto eu moro com meu marido e nosso trigêmeos, Victória, Linda e Thor.
Melinda exibe sempre seu sorriso mais lindo e mais vitorioso quando vem me visitar. Até hoje ela me agradece pelo rim e ainda fala com Lisie de vez em quando, apenas para agradecer novamente pela medula.
Minha filha Linda, teve uma forte anemia quando nasceu mas graças a Mel, que se formou em medicina, ela está curada e forte.
E aquela história de Somos eu e você, você e eu, contra o mundo, sobrevive até hoje. Nos faz lembrar que independente dos obstáculos enormes que a vida nos impôs, nós estivemos juntas, aliás, mais juntas impossível.
Não posso mais praticar a luta, que tanto amo, devido a falta do rim, mas ver o sorriso da minha little sister é muito mais significativo.
(duas-vezes-voce)